What if tourism ended?

E se o turismo acabasse? Hoje beberico o meu café entre o travo da utopia e o colapso da minha mente, enquanto tento processar o exercício mental lançado pelo IPDT no seu "What if tourism ended?". A pergunta cai-me no estômago como um pequeno-almoço de hotel de cinco estrelas que sabemos que vamos ter de pagar caro mais tarde. Pois, para mim, o que cabe na algibeira nunca foram as moedas ou ímanes de gosto duvidoso. O que me enche o coração são as estórias, o conhecimento mastigado no terreno e aquela cultura que só se entranha quando deixamos de ser estatística para passarmos a ser gente. Imaginem o silêncio ensurdecedor da baixa lisboeta sem o chiar dos elétricos apinhados ou de Veneza onde a água voltaria a ser espelho e não sopa de vaporettos. Por um lado, parece o paraíso da sustentabilidade ou um grande suspiro do planeta que chora por não aguentar mais selfies por metro quadrado, mas por outro é o abismo de uma economia que viciámos nesta monocultura do visitante.

Se o turismo “batesse as botas”, o mundo voltaria a ser uma manta de retalhos isolada, onde o "ali ao lado" se tornaria novamente um mistério insondável e o fluxo de ideias deixaria de circular pelas veias dos aeroportos. É impossível não olhar para isto e ver o colapso de um modelo que, apesar de todas as suas falhas e excessos de "turistificação", foi quem deu o oxigénio financeiro para reabilitar o património e para manter vivos museus que agora, nesta minha distopia matinal, estariam entregues às aranhas e ao pó da indiferença. É um equilíbrio lixado entre querer que a natureza se regenere e saber que, sem a troca que esta indústria promove, as nossas sociedades fechariam as janelas e ficariam mais cinzentas, mais ignorantes e, ironicamente, muito mais pobres ... não de dinheiro ou desse vai e vem, mas de mundo!

Sabem que mais? Tenho para mim que, se assim fosse, eu reuniria a família e outras pessoas e passaria uns bons bocados a bebericar café e a contar essas estórias!! Talvez recriássemos o que é nosso... já o fazemos e fazemo-lo tão bem. Este mote levar-me-ia a viajar de outra forma, a descobrir os destinos nas páginas dos livros ou através do olhar dos outros. Talvez Muxagata me dissesse "bom dia" todos os dias e eu lhe sorrisse e dissesse que hoje as crianças vão saber o que é Portugal e que essa é a sua janela para o mundo. 

Se o turismo acabasse, eu ficaria com a algibeira leve, mas a mente pesada, presa num código postal sem direito a contraditório. Talvez o segredo deste café amargo que hoje bebo não é desejar o fim da viagem, mas sim o fim deste turismo de plástico que se consome como fast-food. No fundo, não precisamos que o movimento pare... precisamos apenas que viva sem nos sufocar... para que eu possa continuar a encher a minha algibeira com o que realmente importa, a liberdade de saber que o horizonte não termina onde começa a nossa varanda.

Mas, sabem uma coisa? O turismo não vai acabar. Pode transformar-se, pode até se reinventar, mas a verdade é que seremos sempre eternos turistas. Afinal, enquanto houver uma estrada para desbravar ou uma mesa posta num lugar onde nunca estivemos, a humanidade arranjará forma de fazer as malas, nem que seja só para confirmar que o café do vizinho, afinal, também é amargo.






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