The lost Art of Looking

Querido Diário,

Preciso de desabafar... Bem sei que já não me podes ouvir, ver escrever, ler... enfim... Preciso de compreender porque é que o nosso olhar se está a esvair. Dito assim soa mal e parece que o Jack the Ripper vem atrás de nós. Mas, acho que o nosso olhar ou a arte de contemplar se está a perder. Talvez seja uma afirmação injusta ou apenas um daqueles pensamentos que aparecem sem convite, sentam-se connosco à mesa do café e recusam-se a pagar a conta quando chega a altura de ir embora. A verdade é que me acompanha há algum tempo e voltou a surgir durante uma caminhada recente, dessas que começam com a nobre intenção de mexer o corpo, compensar excessos alimentares e fazer alguma coisa minimamente saudável pela nossa existência, mas que terminam inevitavelmente por se transformar numa reunião extraordinária da consciência, sem ordem de trabalhos definida e sem hora prevista para terminar. 

Enquanto caminhava fui observando as pessoas à minha volta e, sem grande surpresa, reparei que quase toda a gente estava ocupada. Uns falavam ao telemóvel, outros percorriam os ecrãs à velocidade da luz e outros apontavam as câmaras para tudo o que encontravam pela frente como se o mundo corresse o risco iminente de desaparecer caso não fosse imediatamente registado. Nada de novo, dirão vocês com toda a razão... o curioso não foi aquilo que vi, mas aquilo que me pareceu não estar a acontecer, já que no meio de tanta atividade, de tanto movimento e de tanta vontade de captar o momento, tive a estranha sensação de que já quase ninguém olha verdadeiramente para os lugares onde está.

Não estou a falar de ver... olhar é completamente diferente, exige disponibilidade, curiosidade e, acima de tudo, tempo... esse que se tornou uma espécie de luxo moderno, mais difícil de encontrar do que uma esplanada vazia em Lisboa num sábado de sol ou uma caixa de correio sem newsletters que não nos lembramos de ter subscrito.

Dou por mim a pensar nisto sempre que caminho ou viajo... talvez porque durante muitos anos acreditei que viajar consistia essencialmente em descobrir lugares novos, acumular experiências e regressar a casa com a sensação reconfortante de ter acrescentado mais um destino ao mapa pessoal das aventuras vividas. Hoje, talvez por estar mais velha, mais atenta ou apenas por ter aprendido a abrandar um pouco, suspeito que viajar tem muito menos a ver com a quantidade de lugares que visitamos e muito mais com a forma como nos relacionamos com eles porque um lugar não se revela por completo só porque lá estivemos e uma viagem não se torna memorável apenas porque conseguimos encaixar mais um ponto no itinerário.

Talvez seja por isso que isto me dá urticária... faz-me confusão assistir a certas coreografias turísticas que se repetem um pouco por todo o lado e que parecem seguir um guião invisível conhecido por todos. Sempre acreditei que tirar fotografias era poetar com os olhos e vou continuar neste registo porque não quero que a magia desapareça. Porém, o cenário é sempre o mesmo.. chega-se a uma praça, a um miradouro ou a uma rua considerada imperdível, tiram-se fotografias em quantidade industrial, recolhem-se provas de presença, confirma-se que o algoritmo ficou satisfeito, verifica-se se a iluminação favorece, escolhe-se a imagem mais digna de publicação e segue-se imediatamente para o ponto seguinte, tudo isto numa velocidade que me leva a questionar se estamos realmente a visitar um lugar ou apenas a colecionar evidências de que lá estivemos como quem preenche a caderneta de cromos da sua vida sem nunca se dar ao trabalho de ler as histórias escritas nas margens.

O mais curioso é que nem sequer acredito que a culpa seja da tecnologia porque seria demasiado fácil culpar os telemóveis, as redes sociais ou os influencers que parecem descobrir três segredos escondidos, duas joias por revelar e cinco restaurantes imperdíveis antes do pequeno-almoço. Talvez a questão seja mais profunda e, por isso mesmo, mais difícil de resolver, uma vez que nos habituámos a consumir experiências da mesma forma que consumimos informação, séries, vídeos e notícias, sempre com a sensação de que existe qualquer coisa mais interessante logo a seguir e de que permanecer demasiado tempo no mesmo lugar representa uma oportunidade perdida, ainda que raramente saibamos explicar exatamente qual.

Lembro-me muitas vezes de Muxagata quando penso nisto, talvez porque ali as coisas ainda acontecem a uma velocidade que permite observá-las e apreciá-las sem a sensação permanente de atraso que tantas vezes carregamos nas cidades. Ninguém fotografa o senhor que regressa da horta ao final da tarde, ninguém faz uma publicação sobre o cheiro do pão acabado de cozer que se espalha pela rua inteira e ninguém cria conteúdo sobre as conversas que se prolongam à porta de casa quando o calor finalmente abranda e as pessoas voltam a ocupar o espaço público como sempre fizeram. No entanto, são precisamente esses momentos aparentemente banais que permanecem comigo, muito mais do que muitas fotografias que fui acumulando ao longo dos anos e que hoje repousam esquecidas no disco rígido, aplicações ou pastas que raramente volto a abrir porque aquilo que verdadeiramente fica nunca foi a fotografia perfeita nem o enquadramento irrepreensível.

Será por isso, que diante de todo este pandemónio fotográfico ou memorográfico... Sure, acabei de inventar um palavrão. Who cares? É mesmo por tudo isto que ao visitar a minha galeria fotográfica (olha que fancy que soa) amo as fotografias que tiro aos pescadores do Tejo. Para mim, o que fica mesmo é a gargalhada inesperada de um desconhecido, uma conversa improvável, o som das cigarras numa tarde demasiado quente, o cheiro da terra depois da chuva ou aquela sensação difícil de explicar de estar completamente presente num lugar sem pensar constantemente no que vem a seguir, sem sentir a necessidade de otimizar a experiência e sem transformar cada instante numa tarefa a cumprir até porque aprendi que a arte de fazer nada me leva a beber cada momento e que bem que sabe!!

Talvez seja precisamente isso que me inquieta quando penso neste assunto, não o excesso de imagens, nem a tecnologia, nem sequer a forma como escolhemos viajar, mas a sensação de que estamos lentamente a desaprender uma das coisas mais simples e mais humanas que existem, a capacidade de observar verdadeiramente aquilo que nos rodeia sem a ansiedade permanente de o registar, partilhar ou transformar em qualquer coisa útil.

A ironia de tudo isto é que nunca tivemos tantas oportunidades para conhecer o mundo e, simultaneamente, tão pouca disponibilidade para o observar. Podemos atravessar continentes em poucas horas, descobrir culturas diferentes sem sair de casa, visitar museus através de um ecrã e conversar em tempo real com pessoas que vivem do outro lado do planeta, mas algures pelo caminho parece que fomos trocando a contemplação pela acumulação como se a riqueza de uma experiência pudesse ser medida pela quantidade de locais visitados e não pela profundidade com que esses lugares nos tocaram.

Os lugares fazem exatamente isso quando lhes damos uma oportunidade, transformam-nos sem pedir licença, desafiam certezas que julgávamos inabaláveis, apresentam-nos pessoas que nunca teríamos conhecido e obrigam-nos a olhar para o mundo a partir de perspetivas que dificilmente encontraríamos dentro da nossa rotina habitual. Mas para que isso aconteça é preciso mais do que estar fisicamente presente, é preciso disponibilidade para reparar nos detalhes, escutar os silêncios, observar os gestos e descobrir tudo aquilo que não aparece nos guias de viagem nem nas listas dos sítios imperdíveis que toda a gente garante serem essenciais para uma vida bem vivida.

Talvez o verdadeiro luxo dos nossos dias nem seja o silêncio, apesar de eu continuar a defendê-lo com um entusiasmo quase militante e de achar que devia ser distribuído com muito mais generosidade do que certos conselhos motivacionais que encontramos por aí. Talvez o verdadeiro luxo seja a atenção, essa capacidade cada vez mais rara de estarmos inteiros numa conversa, numa caminhada, numa viagem ou numa simples chávena de café, sem sentirmos a necessidade quase automática de transformar imediatamente esse momento em conteúdo, produtividade ou prova irrefutável da nossa existência.

Prometo continuar a viajar não para ver mais coisas nem para riscar destinos de uma lista imaginária que nunca terá fim, mas para reaprender a olhar e para me lembrar de que o mundo continua cheio de maravilhas. E se um dia me esquecer, espero que Muxagata, uma chávena de café ou um pescador do Tejo façam o favor de me lembrar.

 

A tua,

Tórista




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